Friday, May 06, 2011

Uma data para não esquecer



Cinco de maio de 2011. Nesta data, o STF (Supremo Tribunal Federal) finalmente reconhece, por unanimidade, a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Trocando em miúdos, isso significa que a histórica decisão torna exequível para os homossexuais direitos como o reconhecimento da união estável, garantia de pensão alimentícia em caso de separação, adoção do sobrenome do parceiro, acompanhamento do parceiro servidor público transferido, somar renda para aprovar financiamentos ou alugar imóvel, assumir a guarda do filho do cônjuge ou adotá-lo, fazer declaração conjunta do Imposto de Renda, entre outros.

O artigo 1.723 do Código Civil, que estabelece a união estável heterossexual como entidade familiar, discriminava as pessoas do mesmo sexo que se uniam, formando um lar. Isso acirrava a intolerância dos homofóbicos de plantão, quando destilam sua violência contra as pessoas que amam seus iguais, através de injúrias verbais, piadas de mau gosto, bullying, agressões e assassinatos.

"Dignidade humana é a noção de que todos, sem exceção, têm direito a uma igual consideração", assim se pronunciou o ministro Joaquim Barbosa, ao declarar seu voto. Igualmente decisiva foi a fala da ministra Cármen Lúcia: "A discriminação é repudiada no sistema constitucional vigente, portanto, o casal gay também forma uma entidade familiar, com direitos e deveres reconhecidos pela legislação brasileira”.

Já era esperado que os religiosos, com poucas exceções, se pronunciassem contra esta decisão. Nas questões da homossexualidade, ninguém se coloca no lugar do outro nem respeita o próximo como a si mesmo, como falou Jesus. Isso faz com que se torne extremamente difícil a auto aceitação da condição homossexual e menos ainda a aceitação da sociedade em geral.

Sempre tive a esperança de viver o suficiente para assistir o dia em que os seres humanos seriam respeitados e tratados de forma igualitária, não importando o sexo, a orientação sexual, raça ou etnia. A atitude do STF me deixou feliz, mesmo sabendo que a lei anda e os costumes arraigados se arrastam aos seus pés. Mas já é meio caminho andado. Um dia chegaremos lá. Como disse Chico Xavier, "Não podemos voltar atrás e fazer um novo começo, mas podemos começar agora para fazer um novo final"



Nilze Costa e Silva

Friday, January 14, 2011

Paris, século XIX


No jardim, Camille brinca de esculpir estátuas de argila.
Em suas mãos a arte toma a forma delicada de um pássaro que parte...

Camille cresce entre estranhas e selvagens criaturas.
Entre elas, a escultura das mouras:
três irmãs que fiavam o destino dos deuses e da humanidade.

Ora fadas, ora bruxas - não tinham idade
como Camille Claudel

Tão difícil ser artista e ser mulher
e mesmo assim superar o mestre ...

Escândalo amar o mestre!
Escândalo ser artista.

Camille se agarra aos próprios dedos
pra não ter a alma desmoronada por um ídolo de barro.

Formas fálicas a perseguem
Mascaradas, moldadas em seu passado escandaloso e feiticeiro
Foge da própria escultura voando do alto de uma torre...

Queria tanto escapar das estátuas de Rodin
Elas batem à sua porta
para que lhes dê a delicadeza de suas formas eternas...

No delírio, Camille corre, insana, com sua vassoura vermelha
a caçar anjos e moldar suas esculturas

A sociedade de Paris
lança-a na fogueira dos interditos, alucinados, malditos

- Camille Claudel, a artista louca, amante de Rodin...

Consciente da própria lucidez
Camille confunde o seu lamento
Com o ranger da cadeira de balanço:

“sou como a Pele de Asno ou ou Cinderela
condenada a cuidar da lareira
sem esperança de ver chegar a fada
ou o Príncipe encantado
que deve mudar minha roupa de pele e cinzas
em vestidos cor do tempo”.

Nilze Costa e Silva

Monday, November 01, 2010

Nós chegamos lá



Quando em 1791 Olympe de Gouges, revolucionária francesa, lançou o manifesto “Declaração dos Direitos da Mulher”, denunciando a Declaração dos Direitos do Homem (restritos ao sexo masculino), pagou caro por essa ousadia. Foi condenada sob o veredito de querer “exercer funções masculinas e esquecer as virtudes próprias do seu sexo”. Morreu guilhotinada. Era uma defensora da democracia e dos direitos das mulheres.

Mais de dois séculos se passaram. Entre tantas mulheres heroínas e lutadoras que tombaram insubmissas ao poder machista, surge uma nova Olympe de Gouges, que resistiu à decapitação moral que tentou arrastar seu nome ao lamaçal das injúrias. Quantas vezes ameaçada, chamada de assassina, matadora de criancinhas, “dilmão”, mentirosa, terrorista e impostora, Dilma ergueu a cabeça e enfrentou os inimigos com a audácia de uma guerreira! Quantas vezes cansada e com olheiras, ela insistia: estou preparada para governar o Brasil.

Tentaram destruir a imagem de Dilma de forma machista e preconceituosa, não considerando sua trajetória de luta em defesa da democracia nos períodos mais árduos da ditadura militar que assolou o país na década de 60 e começo de 70. Na época, ainda jovem, foi torturada por longo tempo, mantendo, no entanto, suas convicções de liberdade. Candidata a Presidente da República em 2010, teve entre seus perseguidores alguns dos maiores admiradores do golpe militar de 64, que ceifou parte das liberdades individuais do povo brasileiro. Seus opositores usaram até o nome de Deus para armar um clima de guerra suja, durante todo o período eleitoral. E ainda se diziam do bem. Mas essa mulher, chamada Dilma Rousseff, que esteve à beira da decapitação moral, não se deixou abater, tendo ao seu lado aquele que também venceu o medo e o preconceito.

Esse é mais um momento histórico de nossa Pátria. Em 2004 um operário é eleito Presidente da República. Em 2010 o Brasil tem o orgulho de poder ver, na força da mulher, a continuidade da transformação social que se instalou no País.

Sinto-me feliz, como mulher e feminista por ter sido protagonista desse tempo, além de coadjuvante de um processo que entrará para os anais da história do Brasil. Orgulho-me de poder assistir, na coragem da nossa primeira presidenta eleita, a continuidade de mudança para o meu país.

Wednesday, August 25, 2010

Ary Sherlock, eterno ídolo


Se ele não fosse ator o que seria? Não dá para imaginar. As páginas do Vida & Arte (O Povo 25/08) me conduziram rapidamente ao passado. Rua Dragão do Mar e a casa misteriosa da D. Santa Porto, enorme, que terminava na R. José Avelino. Um dia ou dois na semana a meninada aguardava os artistas que viriam para o ensaio teatral. Era o pessoal da TV Ceará, Canal 2. Começo da década de 60. Na rua, só uma televisão. Era lá onde os vizinhos se acotovelavam para ver as novelas muitas vezes adaptadas de grandes obras da Literatura, como Oliver Twist (Charles Dickens).
Quando os atores chegavam a garotada, pré-adolescente, se acotovelava. Eu roía as unhas de tanta ansiedade. À frente, meu grande ídolo: Ary Sherlock. Ele chegava barulhento e sorridente, nós batíamos palmas e ele acenava. Junto, Emiliano Queiroz, Cleide Holanda, Karla Peixoto. Mas eu só via o Ary, bonito, longa e negra cabeleira, olhos azuis, gestos amáveis. Eu não tinha coragem de me aproximar, ficava só admirando, de longe, aquele maravilhoso ator de quem eu assistia todas as novelas.

Vinte anos depois, encontrei-o num evento, cara a cara, olho no olho. Avancei e lhe falei da minha paixão. Ele lembrou da rua, dos ensaios e ficou perplexo quando eu cantei a música da órfã, interpretada por Cleide Holanda: “Quando o tempo passa/deixa a fumaça/da recordação/quando o amor termina/deixa uma mágoa no meu coração”. Cantei a música inteira. Eu estava feliz por finalmente encontrar o meu ídolo.
Repeti a pergunta de todos: por que não fora embora? Estaria brilhando nas redes nacionais de TV. Sugeri que escrevesse uma autobiografia, contando sua trajetória artística. Ousada, ainda pedi que fizesse a apresentação de um dos meus livros, o que fez com muita gentileza. Ficamos amigos até hoje, quando soube que este menino talentoso, que não sabe fazer outra coisa senão teatro, completou 80 anos.
Parabéns meu grande ator, morador eterno das minhas recordações de infância e juventude.

Tuesday, June 22, 2010

NA CALADA DA NOITE

A humanidade está vivendo um momento peculiar. Ao mesmo tempo em que presenciamos atos de injustiça social, corrupção e violência generalizada, percebemos a manifestação de um novo estilo de vida, com dimensões mais espiritualizadas. Criam-se movimentos em busca da paz e da solidariedade cristã, novos direitos de liberdade e leis para mantê-los. Sem dúvida o ser humano está ressignificando seus valores e princípios, pensando no outro quase como em si mesmo.Temos um exemplo disso quando ocorrem grandes calamidades naturais. Algumas pessoas se emocionam assistindo ao sofrimento de outras e logo se criam campanhas de solidariedade, colhendo doações para os sofredores. As boas ações espalham-se rapidamente, disseminado a epidemia do bem.

Sabemos que fora das calamidades existem milhares de pessoas anônimas e tantas vezes solitárias ajudando crianças, adolescentes, deficientes e idosos carentes. Essas ações raramente aparecem nos noticiários de TV e jornais. Recentemente a TV Globo lançou o programa “Brasileiros”, que apresenta semanalmente a história de alguém que, por meio de suas atitudes, mudou a vida de pessoas necessitadas. O primeiro episódio anunciou a história de Flávio Sampaio, filho de um pescador na pequena cidade de Paracuru, no Ceará, que desde criança optou pela carreira de bailarino. Com muita dificuldade, pela falta de apoio do pai, perseguiu seu sonho, estudou e venceu. Chegou ao grupo de balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Anos depois, já aposentado, Flávio voltou à sua cidade e ficou preocupado com a quantidade de jovens ociosos, expostos ao apelo das drogas. Então resolveu fundar uma escola de dança que atende 200 jovens, filhos de lavradores e pescadores, ação que transformou a vida da comunidade.

Finalmente uma história de bondade na TV. Mas por que na calada da noite? Dez minutos para meia noite começa o programa, que pouca gente vê. Será porque noticia boa não dá IBOP?

Monday, April 12, 2010

Fortaleza, não me deixes

Dia 13 de abril, Fortaleza completa 284 anos. Pense numa cidade pai d’égua! Em bom cearês, posso dizer que sou “arriada os 4 pneus“ por ela, que me comove e me passa a impressão de ser a mais bela do Planeta. Não só pelas praias, pela cultura, pelo nível dos artistas que tem. É uma beleza que vem das pessoas que a habitam. Com tantos problemas (violência, pobreza, prostituição), ela consegue ser amorosa e alegre, o tempo todo.

Forasteira que sou posso dizer que Fortaleza marcou minha existência neste plano, ensinando-me a ser solidária, a chorar com as lembranças de outrora, mas principalmente a rir. Rir muito. Pois o povo de Fortaleza faz piada de tudo. O humor é uma característica tão marcante que está escrito nos muros, no jeito de ser, nos ditos e na boca dos trabalhadores que recebem os turistas.

Quer passar nas três faculdades (UFC, UECE E UNIFOR)? É só tomar o ônibus do Paranjana! Certa vez uma inscrição num muro me fez dar gargalhadas. Um idealista e jovem candidato a vereador, fez esta propaganda poética num muro: “Sonhos, acredite neles”. Achei bonita aquela frase. Mas dois dias depois um anônimo já pichava embaixo “Acorda, pô!” Um dia alguém me lançou esse questionamento: porque a Ponte Metálica é de madeira? De um motorista de táxi ouvi: “Tem gente que compra no Beco da Poeira e diz que comprou no Iguatemi”. Saio rindo à toa ao saber que cearense pede desconto até na compra de um picolé e que é autor de uma das maiores invenções: o dindim de coco queimado; Pode estar ruim como for, mas o cearense sempre faz a festa. Tempo ruim em cearês é quando não chove. Qual o povo que guarda a lembrança de um bode chamado Ioiô, boêmio que perambulava pela Praça do Ferreira junto aos escritores, em começos do século passado? E quem daria um museu a esse bode?

Até na Bienal do Livro de Fortaleza se faz piada. A organização do evento resolveu este ano não dar cachê aos artistas da terra, só aos de fora. Mas fez o “favor” de inaugurar para os poetas o espaço “Não Me Deixes”, em homenagem a nossa grande escritora Rachel de Queiroz, pois ela morou numa fazenda com este nome. Os poetas, mesmo desestimulados, trataram de batizar o espaço: “Não me deixes sem cachê”, pois cearense não fica encabulado... ele fica todo errado!

Monday, March 01, 2010

Para lembrar Maria de Araújo


Livro de Nilze Costa e Silva sobre a vida de Maria de Araújo, famosa beata que habitou a cidade de Juazeiro do Norte no final do século XIX, mescla ficção com registro histórico

Thiago Barros
thiagobarros@opovo.com.br
especial para O POVO

26 Fev 2010 - 01h03min


Onde a realidade é tão rica e fascinante que a literatura tem que se render, sem prejuízo, a sua verdade & é lá que Nilze Costa e Silva vai buscar o mote para seu mais recente livro, intitulado A Mulher sem túmulo - vida romanceada de Maria de Araújo, cujo lançamento está marcado para hoje à noite, no Armazém Cultural, com direito a performance interativa. Na obra, ela traz à tona o famoso caso da beata que, ao receber a hóstia do padre numa cerimônia religiosa, teve ela transformada em sangue dentro de sua boca.

Não que Nilze se limite a fazer um registro histórico. Na verdade, pode-se dizer que muito do diferencial do relato está precisamente naquilo que ela vai construir em cima dos fenômenos ocorridos em Juazeiro do Norte, nos fins do século XIX, e que deram ensejo a um dos episódios mais controversos da história do Ceará, o chamado ``Milagre de Juazeiro``. Para isso, a personagem principal desses acontecimentos, Maria de Araújo, volta à vida como a protagonista da obra. ``É uma biografia romanceada``, explica a autora, cujo romance de estreia foi No Fundo do Poço, de 1984. Desde lá, ela vinha se concentrando nos gêneros conto, crônica e ensaio. Com seu livro mais recente, ela interrompe esse ciclo para retomar o estilo romanesco, agora com ares documentais.

E esse retorno não foi fácil. Segundo Nilze, a escassez de material escrito sobre a beata foi uma dificuldade que teve que superar no processo de pesquisa. Para fazê-lo, ela revela ter acessado os inquéritos da época e alguns registros feitos pelo Padre Cícero, figura que teve grande influência sobre o comportamento de Maria de Araújo, tendo, inclusive, acolhido ela em sua casa durante um tempo, além das teses e ensaios sócio-historiográficos que os polêmicos acontecimentos nos quais a beata se envolveu provocaram. Conduzida pelas mãos hábeis da escritora que lhe refaz a jornada, ela é retratada desde a sacrificada infância, marcada pela orfandade e pela necessidade de trabalhar por seu sustento desde cedo, até os acontecimentos que culminariam no famoso milagre. Apesar de verossímil, o relato se resguarda dentro de uma certa ``liberdade poética``.

Esse é, pois, o ponto que oferece mais possibilidades à história, por si só já banhada em uma atmosfera para além do palpável. Acentuando a mescla de elementos reais e ficcionais, ao longo da trama de A Mulher sem túmulo - vida romanceada de Maria de Araújo, a autora apresenta personagens que viveram realmente andando lado a lado com outros que brotaram de sua imaginação. ``Mas 90% deles são reais. Os demais servem de suporte, como as rezadeiras, por exemplo``, adverte. Junto ao mítico religioso padroeiro do Cariri, coadjuvante de luxo da obra, foram incluídos na trama Dona Quinô, a mãe de Padre Cícero, Angélica, irmã dele, e José Marrocos, fiel defensor do caráter sobrenatural do milagre da hóstia. Todos abordados a partir de um enfoque que explora o universo psicológico de cada um, em meio às atribulações recorrentes.

Ainda assim, mesmo alguns dos personagens que viveram de fato aparecem envolvidos em situações e diálogos que, por absoluta impossibilidade de serem resgatados, tiveram de ser inventados. É, no entanto, um erro pensar que a simples necessidade tenha sido o único motor a impulsionar o gênio criativo de Nilze. Ela deixa isso claro ao contar o exemplo de como tomou uma situação imaginada para abordar a relação de Maria com o sangue. Uma relação retomada em toda sua intensidade simbólica. ``É nesse sentido que eu falei sobre a primeira menstruação dela, como aquilo não deveria ser um tabu no interior do Ceará daquela época...``, revela a escritora, lembrando que, durante a segunda metade do século XIX, quando viveu a protagonista da obra, a cidade de Juazeiro do Norte era apenas um povoado. ``Um nada``, para usar suas palavras.


SERVIÇO

A MULHER SEM TÚMULO - VIDA ROMANCEADA DE MARIA DE ARAÚJO - lançamento do livro de Nilze Costa e Silva foi no Armazém da Cultura (Rua Jorge da Rocha, 154 & Aldeota). Preço médio: R$ 38. Outras informações: 3224 9780.

Friday, February 12, 2010

Monday, February 08, 2010

A uma certa Maria

Quero falar de uma Maria

Ausente, escondida

feito coruja nos campos

rasga mortalhas das noites

distante do mundo

sem saber ler nem escrever seu nome


Em sua infância tão pobre

um amiguinho invisível ensinou-a a inventar brinquedos

amarelos, verdes, azuis...

Eram brinquedos tão lindos!

Ninguém, senão Maria, tinha aquele privilégio

de brincar com o menino Jesus


Mas um dia Ele partiu...

deixando-a envergonhada de ter crescido assim

com uma sina obstinada, tatuada, corpo e alma

para levar a mensagem ao povo de Juazeiro

Teve chagas pelo corpo

teve a bocas alagada do sangue da hóstia consagrada

O sangue corria dos lábios, pela língua e pelas mãos

pelos paninhos brancos que o padre limpava o chão


Maria de Araújo!

Quem te fez assim tão forte

Sozinha na noite escura da cidadezinha pobre

desalentada, desacreditada pela Santa Inquisição?


Ah, essa Maria de tantas dores...

Insubmissa às leis humanas

deu comunhão a dois padres da primeira comissão

Insultada, perseguida pela Igreja arrogante

que não acreditava que Deus amava aquela mulher

pobre, negra e analfabeta.


O bispo não concebia que o divino condenava

a tripla discriminação

e escolheu a beata, chamada Maria de Araújo

pra transmitir ao seu povo sua mensagem de amor

como escolhera outrora

os tão pobres pescadores

homens analfabetos que se tornaram apóstolos

da fé que Jesus pregou


A beata do milagre afrontou a arrogância

da segunda comissão

E quando foi inquirida e lhe dada a hóstia na boca

falou com toda ousadia:

“Jesus Cristo tá dizendo, que a hóstia não sangrou

pois os padres da comissão não estão em estado de graça

pra me dar a comunhão”


Por isso foi torturada,

Presa na sozinha cela da Casa de Caridade

Ao voltar pra sua terra

Morreu triste e esquecida

Sem véu, sem nome, sem lar

Padre Cícero ordenou dar-lhe enterro merecido

Mas mesmo depois de enterrada

ainda foi injustiçada

Teve o túmulo violado

como quem nunca nasceu

Mas um dia Juazeiro vai lembrá-la com amor

e dar-lhe a paz merecida

sabendo que Jesus Cristo

amou aquela mulher ousada e destemida


Que assim seja!



Nilze Costa e Silva

Thursday, January 28, 2010

MULHERMAR

Lagoinha - CE


Amanheço, acordo
Desperto em Lagoinha
Durmo, alvoreço
Me enlevo, transpareço
Abro os olhos e sonho

Menina e mulher, mulhermar
Ando sobre dunas quentes
Que me queimam os pés
Choro ondas
Retorno à infância

Iracema menina
Lagoinha mulher
Os quatro cantos de minhas paredes
São rodeadas de mar
Meus cabelos são algas marinhas
Quando durmo e me banho de luar

Lagoinha me toma e me abraça
Me invade e me alaga
Me torna lua
Solitária e nua.



Tuesday, January 12, 2010

A mãe do presidente

Assisti ao filme ``Lula, o filho do Brasil`` quase sempre com lágrimas nos olhos. O filme, na realidade, tem o mérito de homenagear uma mulher valente e voluntariosa. Uma mulher guerreira, modelo de superação da extrema pobreza, da fome, do exílio forçado, do abandono e da violência doméstica.

Dona Lidu era uma mulher teimosa. Saiu de Garanhuns, agreste de Pernambuco, região castigada pela seca, carregando oito filhos em busca de uma vida melhor em São Paulo. Lá morava o marido, que a largou com um filho na barriga. Entrou com seus rebentos em um caminhão pau-de-arara e garantiu a todos eles que a vida iria melhorar. ``É só teimar``, dizia ela. Enfrentando poeira, calor e fome, trazia no colo um menino que se tornaria presidente do maior país da América Latina.

Em Santos, Lidu teve que lutar, enfrentar enchentes e brigar para defender seus filhos do pai violento e alcoólatra. Os filhos pequenos tornam-se vítimas do trabalho infantil e começam a trabalhar como ambulantes, engraxates e empregados domésticos para ajudar no sustento da família. Mas Dona Lidu teimava em manter a família unida e honesta. Lidu era dessas pessoas otimistas, confiante no futuro. Foi ela quem, pessoalmente, matriculou o futuro presidente no curso de torneiro mecânico e estava lá aplaudindo quando ele recebeu o certificado.

Tinha sempre um abraço e um afago, na alegria e na tristeza, inclusive quando ele perdeu um dedo da mão em um acidente de trabalho. Quando Lula enfrentou a dor de ver mortos sua primeira esposa e o filho, ao mesmo tempo, ela estava lá, consolando-o. Lula entrou no movimento sindical contra a sua vontade. Durante a ditadura, a mãe chorava com a possibilidade de sua prisão. O filme nos enche de esperança. É um grande exemplo para os brasileiros, a provar que com honestidade, trabalho e inteligência um menino pobre e nordestino pode se tornar um líder operário e até chegar à presidência da República.

Artigo - Jornal O POVO
(
09 Jan 2010)

Wednesday, November 25, 2009

O Cravo e a Rosa

"O cravo brigou com a rosa

Debaixo de uma latada

O cravo saiu ferido

E a rosa despedaçada"

(Cantiga de roda)


A canção de roda serve como metáfora para ilustrar a situação real em que o masculino (cravo) e o feminino (rosa) se ferem no dia a dia, se maltratam, se despedaçam, ambos terminando feridos, tantas vezes de morte.

Existe um ser ferido na necessidade de reafirmar e provar, em altos brados, que é macho e não homem. Por outro lado, está lá a rosa, desvalorizada em relação ao mundo masculino.

Os modos de educar e socializar meninos e meninas pouco mudaram em relação aos séculos passados. Consideradas inferiores e descartáveis, as mulheres ainda não alcançaram o status de cidadãs, na plenitude dos direitos humanos. Percebe-se isso na divisão sexual do trabalho, onde os salários são mais vantajosos para os homens. Percebe-se ainda na divisão do trabalho doméstico, onde este se acumula, para o sexo feminino, junto ao trabalho remunerado fora do lar.

A discriminação contra a mulher evidencia-se mais tragicamente na situação de dependência afetiva, psicológica e financeira, aliadas à baixa auto-estima, que a torna vulnerável ao fenômeno cada vez mais crescente da violência doméstica.

A Lei Maria da Penha foi um advento importante para coibir a agressão contra as mulheres. Mas ainda não conseguiu mudar a mentalidade do homem e da mulher quando educam seus filhos e filhas. Elas não são educadas para serem protagonistas da própria história. Ao contrário, são educadas para a subalternidade e inferioridade. Por isso, grande parte delas não desenvolvem a capacidade de se auto-governarem.

A autonomia exige consciência, capacidade de escolha, liberdade de pensamento e de ação. Mais que isso, exige uma série de atitudes de afirmação de si na relação com o mundo e com os outros.

A discriminação inferioriza as mulheres de diferentes classes sociais e níveis de escolaridade, pois não se trata de um fenômeno de classe, mas cultural. É uma condição que se esteia em valores e crenças enraizados, que antagonizam homens e mulheres como se fossem indivíduos de mundos diferentes.

A autonomia das mulheres no mundo atual é condição indispensável para a eliminação do machismo e da violência sexista.


Nilze Costa e Silva

Tuesday, July 14, 2009

Convido os amigos e amigas para este evento

Quarta Literária Especial

Convidado: Nilze Costa e Silva
Dia: 15 de julho de 2008 (quarta-feira)
Horário: 19h30
Local: Salão de Eventos da Biblioteca Pública Gov. Menezes Pimentel
Entrada franca

Saturday, July 11, 2009

CENTRO CULTURAL DO BNB
- OUVIR DIZER -

Dia 14 DE JULHO, TERÇA, 15h30 às 16h30

Leituras dramatizadas de textos de autores da literatura brasileira e universal.

Não percam o grande bruxo do teatro cearense e brasileiro!

A platéia apreciará a leitura dramatizada por Ricardo Guilherme
de trechos da obra de Nilze Costa e Silva.

Sunday, May 31, 2009

Quem era Augusto Pontes?


Se me perguntassem quem era Augusto Pontes, essa figura carismática da cultura cearense que Deus levou recentemente para outra esfera, eu repetiria tudo que já se falou dele, acrescentando apenas isso: era um homem que acreditava nas pessoas. Digo isso porque não devo ter sido uma privilegiada com relação à sua fé no ser humano. Eu não fiz parte do seu círculo de amizades, nem freqüentei suas rodas de boemia. Era apenas uma admiradora distante. Fã mesmo. Eis que um dia ele se torna presidente da Fundação Cultural de Fortaleza. Nesta época eu me encontrava um tanto distante da escrita, há anos não publicava, metida com movimentos sociais, leitura e estudo. Instigada pelo curso de especialização em Teoria da Literatura, pensei em publicar minha monografia, Mulheres de Papel, um ensaio sobre o personagem feminino através dos vários estilos de época. O livro ficou pronto e eu sem dinheiro para publicar.

Então, pensei em ir falar direto com o Augusto Pontes na Fundação Cultural. Talvez uma ousadia, por ele não me conhecer e ser uma pessoa de grande relevância no panorama cultural local. Anunciei-me já pensando: ele não vai me receber, por que iria? Mas ele abriu-me a porta sem protocolo, me mandou sentar e fui logo falando que estava ali porque ia desistir da minha carreira literária devido a total falta de dinheiro para publicar minhas obras. Eu falei, falei, e ele não quis muito papo. Só respondeu: “Jamais! Você não vai desistir da sua carreira literária por falta de incentivo”. Prometeu-me uma resposta dali a 15 dias.

Não me perguntem como foi nem se isso é possível. Mas eu saí da Fundação aturdida com um bolo de dinheiro que mal cabia na minha bolsa. Só foi o tempo de reunir meus escritos e entrar na primeira gráfica. Com pouca experiência, a edição saiu péssima, mas com bom conteúdo.

Para mim somente uma coisa importava: Aquele “cara” impulsivo, mais do que ceder a minha chantagem literária, acreditou na jovem escritora emergente. Eu nunca mais deixaria de escrever.

Nilze Costa e Silva

Sunday, April 27, 2008

Água gelada em dente cariado

Ao poeta Mário Gomes

A Praça do Ferreira, toda ornamentada com enfeites natalinos, já não cabe mais nos sonhos do poeta, nem mostra o que ele quer ver. Em sonhos, vê uma praça com muitos bancos, repleta de passantes, algumas árvores frondosas e pássaros em número suficiente para enfeitar o mundo dos loucos. Dali fazia seu escritório ambulante, onde a poesia abrolhava num dos bancos da praça, nas tardes amenas. Uma torrente de palavras e energia neutralizava tudo o que não era bom, tudo o que não era justo, como água gelada num dente cariado. A realidade nunca se enquadrou em seus pensamentos, nunca guiou seus sonhos, nem mostrou-lhe caminhos.
Lá ia ele, todo de terno branco, gravata e lenço vermelho, alguns livros debaixo do braço. Os dias eram coloridos, tatuados de criação poética. Às vezes doce e humilde, às vezes megalomaníaco, julgava-se com poderes divinos. “Sou imortal, eterno, invulnerável, sou mais importante e superior ao ouro sou mais forte do que o aço, o ferro, não tenho idade, sou irmão gêmeo de Deus”.
De um dia para o outro o cáustico poeta, que “beijou a boca da noite e engoliu milhões de estrelas” ficou apenas com os gritos do seu espírito. Roga pragas, solta impropérios, esconjura uns e outros passantes em torno da Praça. Anda no sol e na chuva, conversa com postes de iluminação pública, fala com fantasmas que achincalham sua pouca lucidez.

- Bicho ruim, cão dos infernos, viado!

Relâmpagos e trovões ensombream-lhe a noite. Espanta mosquitos, chuta as pedras do caminho, revoltado com as pessoas que dele se afastam com medo e vergonha. Dias sem cor, visão turbada pelo alucinante das luzes. Acorda na rua, coça os olhos, pisca para enxergar o sol da manhã que teima em nascer. Atroz mesmo era despertar e não ver mais a velha mãe de encanecidos cabelos a preparar-lhe o café da manhã. Ao lado da xícara, um copo com água coberto com um pires, contendo uma drágea do remédio controlado que teria que tomar diariamente.

- Menino, você não beba hoje não! Quem toma remédio não bebe.

Tinha vontade de dizer que não bebesse nunca mais. Mas tinha esperança de que pelo menos hoje o filho seguiria seu conselho. Na madrugada, tinha que se levantar da rede com muito esforço para abrir-lhe a porta. Mais uma vez chegava bêbado, sorriso imenso nos lábios e um verso escrito num guardanapo amassado. Não deixava a mãe dormir enquanto não lesse o poema. Ela ria em certo trecho que falava:

Ah! Como dói

Água gelada no dente cariado!

Onde andaria sua velha, ela não queria morrer e deixar o filho ao relento. Para que voltar a casa se não mais era abrigo, aconchego, colo de mãe onde se ajoelhava para pousar a cabeça fatigada? O diabo da poesia não mais lhe vinha à mente. Só os fantasmas malditos, as sombras com garras que sobre ele avançam. Não adianta fugir. Num rasgo de lucidez tira do bolso do paletó surrado e sujo um papel várias vezes desamassado, onde está escrito: “A pedra não nasce, não cresce, não morre. Mas que adianta ser uma pedra? Prefiro ser o homem que morrerá um dia sem ter inveja da pedra”.

Saturday, April 28, 2007

Conto de fada

A caixa era uma grande arca
onde a Esperança me acordou
de um século de paixão
Nenhum príncipe apareceu
para ressuscitar os meus lábios
com o beijo da aurora
“Campineiro do meu pai
não me corte os meus cabelos ...”
Vaguei pela noite afora
Minha mãe me penteou,
Descobri sete anõezinhos
na Caixinha de Pandora
Espelho, espelho meu
haverá coisa mais linda
que uma noite de lua cheia?
Minha bruxa feiticeira
Porque que me envenenou?
Primeira menstruação, perdi meu sapatinho
E o encanto se desfez:
o príncipe, virou lobo-mau
O esposo que tive morreu
Botei meu vestido de noiva
o meu diadema de flores
e lá me pus na janela:
“Quem quer casar com a senhora baratinha
que tem fitas no cabelo e dinheiro na caixinha”?
(Nilze Costa e Silva)

Sunday, February 04, 2007

Grafites


Meu caderno de infância tinha uma casinha feliz. Um cacto mal rabiscado, do lado esquerdo um sol, ao fundo uma bananeira com um coração flechado que eu nem sabia de quem. O caminho traçado a lápis ia dar lá no jardim, onde inventei passeios de portas abertas para um lago rodeado de grama verdinha, pincelado num belíssimo campo florido. Nesse cenário, nunca podia faltar um gato de rabinho enrolado e olhos arregalados, espreitando maliciosamente por entre os pés de “nove-horas”, com suas flores coloridas.
Meu caderno de infância tinha muitas casinhas felizes. Por trás de uma delas, subia um coqueiro alto indo bater lá no céu. Juntava-se às estrelas por entre todas as nuvens que ameaçavam chover. Chovia quando eu queria, nos desenhos que eu fazia. Sol e lua se encontravam e tudo se harmonizava sem nenhuma explicação. Para quê explicação?
A bandeira do Brasil flamejava milimetricamente, nivelada pela régua gasta e meu com(passo) de criança, que se alvoroçava de amor pelo País que me deu origem. O pau da bandeira era fincado entre flores e margaridas que eu ainda não sabia desfolhar, eternizada no meu bemquerer.
Com meu grafite eu desenhava o mundo inteiro! O que estava errado, eu podia apagar. Mas nunca apaguei estrelas. Quantas vezes me desenhei na noite a olhar as estrelas num céu limitado pelo espaço das páginas, mas tendo a certeza de que alguém no alto estaria a me olhar... Na minha imaginação de menina, era Deus quem me espreitava.
O vento? Nunca o soube desenhar. Mas no meu auto-retrato, os fios dos meus cabelos se esvoaçavam ante a brisa de uma infância feliz. Escrevia embaixo: EU. Todos os contornos coloriam cenas abertas e um final feliz. THE END.
Meu caderno de infância só nunca me revelou o tamanho da saudade que sinto agora. Nem da quase impossibilidade que tenho de desenhar o passado. Lá deixei os melhores momentos do mundo e os personagens mais próximos a mim: minha mãe, meu pai, meus irmãos e irmãs, que eu fazia todos de pernas finas, sorridentes e felizes. Eu ficava no meio, ninguém tinha ido embora... Toda a poesia da vida ficou naqueles grafites, de onde eu nunca saí.

Nilze Costa e Silva

Thursday, November 02, 2006

Essa rua tem história


Do Centro Cultural Dragão do Mar, olho a rua que se estende, não muito longe. Mas o que houve com ela, encurtou? Ou encurtaram meus passos, quiçá minha visão de adulta? Nos meus tempos de menina esta rua era imensa. Pois por ela meninei, logo que cheguei da minha cidade Natal, com pouco tempo de vida. Aos treze anos me fui, olhos molhados, rumo ao desconhecido. A parte boa da minha vida e o maior espaço de tempo também, devo dizer que vivi na casa de número 410 da Rua Dragão do Mar. Foi esta a rua que me viu ensaiar, em câmara lenta, os primeiros passos trôpegos e já incertos. E acalentou os indecisos sonhos de uma adolescente insegura e tomada por paixões fáceis, até pela rua. Lá minha alma terrena conheceu o primeiro amor, nunca retribuído. Também foi ali que derramei a primeira lágrima ao ouvir no rádio antigo de meu pai uma canção do Vinícius falando da saudade e da tristeza de partir:
“Ah, vontade de ficar, mas tendo que ir embora...ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora, é refletir na lágrima um momento breve de uma estrela pura cuja luz morreu, de uma noite escura triste como eu...”
Olho a Praça do Avião, hoje tão festiva e iluminada e lembro que era lá que meu pai nos levava, a mim e aos irmãos, nas tardes de domingo, a passear de velocípede. Naquele tempo a rua Dragão do mar era marcada por um apartheid que eu não entendia muito bem. No primeiro quarteirão, a partir da Capitania dos Portos, havia uma zona de prostituição, onde reinavam a famosa Maria Cabelão e os homossexuais Elvis Presley e Zé Tatá. Esta era uma zona socialmente proibida para crianças e adolescentes. Mas se tínhamos mesmo que passar por lá, deveríamos descer a calçada, pois era até pecado olhar as casas, os adultos diziam. O próximo quarteirão, da Travessa Itapipoca até a Rua Tigipió, era onde ficava a “calçada da Jonhson”, o reduto da meninada, para os jogos de bila, arraia, manjô e macaca – hoje essas brincadeiras têm outros nomes que me recuso a traduzir por saudade e despeito. A partir dali, a rua subia num morro de areia. De um lado, um pântano e um córrego, onde as lavadeiras lavavam as roupas dos que ficavam embaixo, na parte calçada. Do outro lado, um terreno murado, onde nos deparávamos com inscrições obscenas e desenhos pornográficos. No inverno, as águas da chuva desciam vertiginosamente ladeira abaixo, indo desembocar num esgoto – era a nossa cachoeira em miniatura. O melhor programa da época: tomar banho de chuva e observar os caracóis indolentes na sua caminhada interminável e os peixinhos ágeis, que nos escapavam das mãos. Era ali que deixávamos sem rumo os barquinhos de papel que a correnteza levava.
Rua Dragão do Mar, túnel dom tempo. Viajo nas lembranças e na dolorosa certeza de que não se pode preservar ao menos os cenários dos tempos bons da infância. Novas cenas e novos personagens invadiram minha vida. Mas quando durmo e sonho, nem Freud explica o porquê de, na maioria das vezes, estarem lá, todos na casa grande, onde hoje cabe bem mais gente - como se eu nunca me tivesse me apartado de Iracema.


Nilze Costa e Silva

Cidade da Criança



Nilze Costa e Silva

Num dia qualquer da minha adolescência saí para namorar e ficamos lá, comendo pipocas. Nem demos pipocas aos animais. Pipocas haviam, muitas. Eles é que não estavam mais lá. Entre aconchegos e juras de amor, divaguei, fugi, viajei. Meus olhos divisaram todo o parque, como se numa outra dimensão. A dimensão do passado. Deixei longe o meu namorado.
A Cidade da Criança (ou Parque da Criança, como também é conhecido), nos meus tempos de menina era ornamentada por frondosas árvores, onde os pardais entoavam um canto estridente que se ouvia de uma ponta a outra do arco-íris. Se alguém não ouvia era porque não queria. Os pássaros estavam lá e o arco-íris também.
A cidade da minha criança, da criança que fui e que tantas vezes ainda sou, era um local alegre, com parques de diversão, sorvetes coloridos, maçãs do amor, rodas gigantes e muitos, muitos casais de namorados. Papai Noel recebia as chaves de Fortaleza e lá pousava, vindo dividir seus brinquedos com a meninada. Haviam animais presos nas jaulas, onças, tigres, macacos e as mais belas aves com suas plumas coloridas a nos encantar a vista.
Já faz tanto tempo... O namorado se foi, outros vieram. Hoje sinto-me madura e lúcida, mas o parque ainda está lá. Os bancos, as árvores e os pardais continuaram. A cidade da criança foi se transformando e ficando triste. Num outro momento, as crianças da Escolinha Alba Frota ainda brincavam de três três passarás. Se não for o da frente há de ser o de trás. Algumas se arriscavam a desfilar sobre a pérgula do lago, que passou a ter um cheiro esquisito e desagradável. As folhas das árvores escureceram com a poluição dos ônibus que circulam pela Praça Coração de Jesus, em frente. Por trás do gradil que rodeia o parque (que parque?) alguns seres pequeninos espiam. São as crianças sem teto e sem lar. Têm fome, assaltam, saqueiam, cheiram cola. Fim de tarde, a Escolinha Alba Frota encerra mais um dia de aula. Sadios e risonhos, os pequenos estudantes retornam ao lar.
À noite, outros meninos e meninas invadem o parque. São buliçosos e estridentes como os pardais do dia. Vêem arco-íris e sobem por eles. Percebem sorvetes coloridos sem poder alcançá-los, na ilusão da cola. Dão piruetas, invadem a escolinha e roubam. A Cidade da Criança é só deles. Cansados da noite, correm aos bandos e vão dormir, pelos bancos das praças, que já é outro dia.
Hoje, a escolinha não mais está lá. Teve que se mudar, pois as crianças de dentro eram ameaçadas pelas de fora, que não tinham os mesmos direitos. Então a Prefeitura resolveu que o parque se transformaria num pólo aglutinador das várias entidades que defendem a cidadania daqueles meninos e meninas abandonados. E foram construídas casinhas coloridas onde funcionam a Fundação da Criança da Cidade, O Conselho Tutelar, O Conselho de Defesa da Criança e do Adolescente. Vê-se poucas crianças por lá. A cidade, agora com casinhas tão coloridas, parecendo ter vindo dos contos de fadas, não é mais delas, embora digam que é para elas. Ainda estão lá fora a mendigar, a roubar, a delinqüir, entregues ao ócio do abandono.
Cidade da Criança... Hoje, tantos anos passados, eu queria era mesmo poder dizer que ela permanece bonita como antigamente. Reunir as pessoas, juntar os pedaços do passado como um quebra-cabeça que se concertasse e colocasse no lugar todos os cacos quebrados... Ver novamente o lago limpo e cheiroso, as árvores viçosas, os animais vaidosos, expondo seus reluzentes pêlos e plumas e as crianças felizes espreitando-os por entre as grades. Tenho medo que nem os pardais fiquem e partam em revoada para outros locais mais alegres e arejados. Que fujam com medo do barulho, da poluição, das injustiças. Que partam para bem longe, a lamentar com seu canto triste que esse parque, essa cidade, já não é mais da criança.