Monday, June 25, 2012
A FORTALEZA ENCANTADA: da bela e da fera
Friday, May 06, 2011
Uma data para não esquecer

O artigo 1.723 do Código Civil, que estabelece a união estável heterossexual como entidade familiar, discriminava as pessoas do mesmo sexo que se uniam, formando um lar. Isso acirrava a intolerância dos homofóbicos de plantão, quando destilam sua violência contra as pessoas que amam seus iguais, através de injúrias verbais, piadas de mau gosto, bullying, agressões e assassinatos.
"Dignidade humana é a noção de que todos, sem exceção, têm direito a uma igual consideração", assim se pronunciou o ministro Joaquim Barbosa, ao declarar seu voto. Igualmente decisiva foi a fala da ministra Cármen Lúcia: "A discriminação é repudiada no sistema constitucional vigente, portanto, o casal gay também forma uma entidade familiar, com direitos e deveres reconhecidos pela legislação brasileira”.
Já era esperado que os religiosos, com poucas exceções, se pronunciassem contra esta decisão. Nas questões da homossexualidade, ninguém se coloca no lugar do outro nem respeita o próximo como a si mesmo, como falou Jesus. Isso faz com que se torne extremamente difícil a auto aceitação da condição homossexual e menos ainda a aceitação da sociedade em geral.
Sempre tive a esperança de viver o suficiente para assistir o dia em que os seres humanos seriam respeitados e tratados de forma igualitária, não importando o sexo, a orientação sexual, raça ou etnia. A atitude do STF me deixou feliz, mesmo sabendo que a lei anda e os costumes arraigados se arrastam aos seus pés. Mas já é meio caminho andado. Um dia chegaremos lá. Como disse Chico Xavier, "Não podemos voltar atrás e fazer um novo começo, mas podemos começar agora para fazer um novo final"
Nilze Costa e Silva
Friday, January 14, 2011
Paris, século XIX

No jardim, Camille brinca de esculpir estátuas de argila.
Em suas mãos a arte toma a forma delicada de um pássaro que parte...
Camille cresce entre estranhas e selvagens criaturas.
Entre elas, a escultura das mouras:
três irmãs que fiavam o destino dos deuses e da humanidade.
Ora fadas, ora bruxas - não tinham idade
como Camille Claudel
Tão difícil ser artista e ser mulher
e mesmo assim superar o mestre ...
Escândalo amar o mestre!
Escândalo ser artista.
Camille se agarra aos próprios dedos
pra não ter a alma desmoronada por um ídolo de barro.
Formas fálicas a perseguem
Mascaradas, moldadas em seu passado escandaloso e feiticeiro
Foge da própria escultura voando do alto de uma torre...
Queria tanto escapar das estátuas de Rodin
Elas batem à sua porta
para que lhes dê a delicadeza de suas formas eternas...
No delírio, Camille corre, insana, com sua vassoura vermelha
a caçar anjos e moldar suas esculturas
A sociedade de Paris
lança-a na fogueira dos interditos, alucinados, malditos
- Camille Claudel, a artista louca, amante de Rodin...
Consciente da própria lucidez
Camille confunde o seu lamento
Com o ranger da cadeira de balanço:
“sou como a Pele de Asno ou ou Cinderela
condenada a cuidar da lareira
sem esperança de ver chegar a fada
ou o Príncipe encantado
que deve mudar minha roupa de pele e cinzas
em vestidos cor do tempo”.
Monday, November 01, 2010
Nós chegamos lá

Quando em 1791 Olympe de Gouges, revolucionária francesa, lançou o manifesto “Declaração dos Direitos da Mulher”, denunciando a Declaração dos Direitos do Homem (restritos ao sexo masculino), pagou caro por essa ousadia. Foi condenada sob o veredito de querer “exercer funções masculinas e esquecer as virtudes próprias do seu sexo”. Morreu guilhotinada. Era uma defensora da democracia e dos direitos das mulheres.
Mais de dois séculos se passaram. Entre tantas mulheres heroínas e lutadoras que tombaram insubmissas ao poder machista, surge uma nova Olympe de Gouges, que resistiu à decapitação moral que tentou arrastar seu nome ao lamaçal das injúrias. Quantas vezes ameaçada, chamada de assassina, matadora de criancinhas, “dilmão”, mentirosa, terrorista e impostora, Dilma ergueu a cabeça e enfrentou os inimigos com a audácia de uma guerreira! Quantas vezes cansada e com olheiras, ela insistia: estou preparada para governar o Brasil.
Tentaram destruir a imagem de Dilma de forma machista e preconceituosa, não considerando sua trajetória de luta em defesa da democracia nos períodos mais árduos da ditadura militar que assolou o país na década de 60 e começo de 70. Na época, ainda jovem, foi torturada por longo tempo, mantendo, no entanto, suas convicções de liberdade. Candidata a Presidente da República em 2010, teve entre seus perseguidores alguns dos maiores admiradores do golpe militar de 64, que ceifou parte das liberdades individuais do povo brasileiro. Seus opositores usaram até o nome de Deus para armar um clima de guerra suja, durante todo o período eleitoral. E ainda se diziam do bem. Mas essa mulher, chamada Dilma Rousseff, que esteve à beira da decapitação moral, não se deixou abater, tendo ao seu lado aquele que também venceu o medo e o preconceito.
Esse é mais um momento histórico de nossa Pátria. Em 2004 um operário é eleito Presidente da República. Em 2010 o Brasil tem o orgulho de poder ver, na força da mulher, a continuidade da transformação social que se instalou no País.
Sinto-me feliz, como mulher e feminista por ter sido protagonista desse tempo, além de coadjuvante de um processo que entrará para os anais da história do Brasil. Orgulho-me de poder assistir, na coragem da nossa primeira presidenta eleita, a continuidade de mudança para o meu país.
Wednesday, August 25, 2010
Ary Sherlock, eterno ídolo

Vinte anos depois, encontrei-o num evento, cara a cara, olho no olho. Avancei e lhe falei da minha paixão. Ele lembrou da rua, dos ensaios e ficou perplexo quando eu cantei a música da órfã, interpretada por Cleide Holanda: “Quando o tempo passa/deixa a fumaça/da recordação/quando o amor termina/deixa uma mágoa no meu coração”. Cantei a música inteira. Eu estava feliz por finalmente encontrar o meu ídolo.
Tuesday, June 22, 2010
NA CALADA DA NOITE
Sabemos que fora das calamidades existem milhares de pessoas anônimas e tantas vezes solitárias ajudando crianças, adolescentes, deficientes e idosos carentes. Essas ações raramente aparecem nos noticiários de TV e jornais. Recentemente a TV Globo lançou o programa “Brasileiros”, que apresenta semanalmente a história de alguém que, por meio de suas atitudes, mudou a vida de pessoas necessitadas. O primeiro episódio anunciou a história de Flávio Sampaio, filho de um pescador na pequena cidade de Paracuru, no Ceará, que desde criança optou pela carreira de bailarino. Com muita dificuldade, pela falta de apoio do pai, perseguiu seu sonho, estudou e venceu. Chegou ao grupo de balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Anos depois, já aposentado, Flávio voltou à sua cidade e ficou preocupado com a quantidade de jovens ociosos, expostos ao apelo das drogas. Então resolveu fundar uma escola de dança que atende 200 jovens, filhos de lavradores e pescadores, ação que transformou a vida da comunidade.
Finalmente uma história de bondade na TV. Mas por que na calada da noite? Dez minutos para meia noite começa o programa, que pouca gente vê. Será porque noticia boa não dá IBOP?
Monday, April 12, 2010
Fortaleza, não me deixes
Dia 13 de abril, Fortaleza completa 284 anos. Pense numa cidade pai d’égua! Em bom cearês, posso dizer que sou “arriada os 4 pneus“ por ela, que me comove e me passa a impressão de ser a mais bela do Planeta. Não só pelas praias, pela cultura, pelo nível dos artistas que tem. É uma beleza que vem das pessoas que a habitam. Com tantos problemas (violência, pobreza, prostituição), ela consegue ser amorosa e alegre, o tempo todo.
Forasteira que sou posso dizer que Fortaleza marcou minha existência neste plano, ensinando-me a ser solidária, a chorar com as lembranças de outrora, mas principalmente a rir. Rir muito. Pois o povo de Fortaleza faz piada de tudo. O humor é uma característica tão marcante que está escrito nos muros, no jeito de ser, nos ditos e na boca dos trabalhadores que recebem os turistas.
Quer passar nas três faculdades (UFC, UECE E UNIFOR)? É só tomar o ônibus do Paranjana! Certa vez uma inscrição num muro me fez dar gargalhadas. Um idealista e jovem candidato a vereador, fez esta propaganda poética num muro: “Sonhos, acredite neles”. Achei bonita aquela frase. Mas dois dias depois um anônimo já pichava embaixo “Acorda, pô!” Um dia alguém me lançou esse questionamento: porque a Ponte Metálica é de madeira? De um motorista de táxi ouvi: “Tem gente que compra no Beco da Poeira e diz que comprou no Iguatemi”. Saio rindo à toa ao saber que cearense pede desconto até na compra de um picolé e que é autor de uma das maiores invenções: o dindim de coco queimado; Pode estar ruim como for, mas o cearense sempre faz a festa. Tempo ruim em cearês é quando não chove. Qual o povo que guarda a lembrança de um bode chamado Ioiô, boêmio que perambulava pela Praça do Ferreira junto aos escritores, em começos do século passado? E quem daria um museu a esse bode?
Até na Bienal do Livro de Fortaleza se faz piada. A organização do evento resolveu este ano não dar cachê aos artistas da terra, só aos de fora. Mas fez o “favor” de inaugurar para os poetas o espaço “Não Me Deixes”, em homenagem a nossa grande escritora Rachel de Queiroz, pois ela morou numa fazenda com este nome. Os poetas, mesmo desestimulados, trataram de batizar o espaço: “Não me deixes sem cachê”, pois cearense não fica encabulado... ele fica todo errado!